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Capítulo 1 (Capítulos) #029

“Perdendo tudo”

O Começo de Oruk, o Tigre da Guerra

A noite caiu como um manto pesado sobre as planícies selvagens de ThokMar, lar ancestral do clã dos Tigres Rubros. A brisa noturna, carregada com o perfume das flores de KarTa e o cheiro áspero da terra, serpenteava entre as tendas de couro e madeira esculpida, sussurrando segredos antigos aos que sabiam escutar. Era noite de contos. Os anciãos, com suas peles marcadas pelo tempo e olhos brilhantes como brasas, se reuniam ao redor da grande fogueira central, onde as lendas dos primeiros orcs eram entoadas em ritmo de tambor, acompanhadas pelo som de flautas de osso e cantos guturais.

Entre os jovens reunidos, havia um pequeno orc de pelagem listrada, como os tigres da selva, com olhos de um dourado profundo, quase selvagem. Oruk I, como fora nomeado ao nascer, era ainda uma cria de seis invernos, mas sua presença já se fazia notar. Os anciãos diziam que o espírito da fera rugia dentro dele, e que seu destino estava entrelaçado ao sangue e à glória.

Naquela noite, sua mãe, Karisha, sentada em uma esteira trançada, acariciava-lhe os cabelos grossos enquanto contava as histórias dos heróis do clã — guerreiros que haviam enfrentado os deuses, monstros e reis por igual. Oruk escutava com atenção, os olhos brilhando com cada gesto, com cada sílaba carregada de honra e coragem. Ele sonhava ser um deles. Ser lembrado. Ser forte. Defender o clã, como seu pai já fizera.

Mas os deuses, naquela noite, ouviram outros nomes.

Foi quando o sino de pedra tocou. Três vezes. Alto. Ecoando pelo vale como um trovão dissonante. Um som que cortava o calor da fogueira e deixava um gosto de ferro no ar.

Oruk olhou para a mãe, confuso. Aquilo não fazia parte da cerimônia. Não era hora de festividade, tampouco de luto. Mas seus olhos, os de Ka’risha, se arregalaram. Ela se levantou em silêncio e olhou para o norte, para a entrada do vale. Algo estava vindo. Algo errado.

As sentinelas da paliçada gritaram. Alarmes. Chifres de aviso. Tardios demais.

Quando a poeira se ergueu no horizonte, já era tarde demais. As árvores dobravam-se com o tropel de cavalos, e o brilho de armaduras reluzia sob a luz da lua como lâminas famintas. Os Arautos de Calderis haviam chegado.

Vinham em nome da coroa humana. Soldados montados, bem armados, envoltos em capas negras com o brasão do falcão vermelho. Diziam estar em busca de reforços para a guerra no sul — uma guerra contra as Criaturas Corrompidas, monstros que emergiam dos pântanos venenosos e devastavam vilarejos inteiros. Mas entre os orcs, a verdade era conhecida: aquilo era uma caçada. Uma coleta. Crianças levadas como oferenda de sangue.

O comandante, um homem de pele pálida e olhos vazios, ergueu a voz:

"Entreguem os jovens... ou ardam com eles."

A sentença caiu como uma maldição.

As mães gritaram. Os pais armaram-se com lanças de osso e machados de pedra. Guerreiros antigos saíram das tendas, com olhares de quem já sabiam o destino que os aguardava. Mas lutar contra Calderis era como lutar contra uma tempestade de ferro e fogo. Eles não viriam negociar. Vieram tomar.

Ele foi puxado pela mão por sua mãe, arrastado por entre as tendas e rochas, os gritos se misturando ao som das espadas cravando carne e ao estalar de lanças.

Eles correram por um estreito caminho que levava à ravina de ThokMar, uma trilha que apenas os do clã conheciam bem. Mas os olhos humanos eram frios e treinados. Os cavalos eram mais rápidos.

Oruk I foi derrubado ao chão por um golpe de haste. Sua mãe se virou, rugindo como uma besta — mas a lâmina veio mais rápido. Um corte limpo. Um grito sufocado.

A última coisa que ele viu antes de ser desacordado foi o rosto da sua mãe, coberto de sangue, seus olhos ainda fixos nele com um amor que nem a morte conseguiu apagar.

Ele acordou em uma carroça de ferro, acorrentado com outras crianças. Algumas choravam. Outras, em choque, olhavam para o nada.

Oruk, porém, apertava os punhos.

Ele não chorou.

Ele lembrava

Do cheiro da sua terra. Do tambor. Da mão quente da mãe em seus cabelos.

E jurou.

Jurou que um dia voltaria. Jurou que aqueles olhos de ouro seriam temidos. Jurou que, se precisasse rasgar os céus e esmagar montanhas, ele faria.